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“Liberdade aos diferentes”

loucuraOlá a todos. Antes de mais nada, deixe-me apresentar-me, chamo-me Ângelo e gostaria de dividir um pouco da minha história com vocês.

Nasci em uma boa família, não dessas perfeitas, que se vê em livros de histórias ou em filmes, mas uma família muito carinhosa e muito cheia de amor.

Minha infância foi maravilhosa. Graças a Deus, a tecnologia ainda não havia tomado conta de tudo, deixando-me a oportunidade de brincar, correr, conversar e aprontar bastante ao ar livre (como toda criança que se preze). E isso fiz o máximo que pude, tanto é que hoje tenho boas lembranças dessa época mágica da minha vida.

Minha adolescência foi como a de qualquer outro: cheia de conflitos, mas também prazerosa por tantas descobertas que são feitas nesse período. Tinha o sonho de ser famoso, era esse meu maior desejo. Pensava horas o quanto seria bom sair de casa, nem que fosse até a esquina comprar pão, e cumprimentar calorosamente todos que encontrasse pelo caminho. Era algo especial que sentia dentro de mim que me fazia sonhar de tal forma, pensava eu.

Era como se algo muito bonito em meu interior gritasse, na vontade de sair e mostrar-se ao mundo inteiro. Mas era eu ainda um rapaz muito jovem e inexperiente, e como já havia dito, encontrava-me em uma fase de descobertas. Mas infelizmente uma destas não foi-me muito positiva.

Quando comecei a ingressar no universo dos jovens de minha geração, todos tão descolados e tão aparentemente seguros de si, deparei-me diante de uma escolha que mudaria toda minha vida dali pra frente: experimentar drogas ou não?

Infelizmente fiz a escolha errada e o preço que pago até hoje é dolorosamente muito caro.

Todos os meus sonhos vieram a ruína quando me descobri em um surto psicótico desencadeado pela droga. Já não conseguia interagir com as pessoas, agir e nem ao mesmo pensar da mesma forma que antes. Tinha a vaga sensação de que havia algo de diferente em mim, na minha forma de pensar e ver as coisas, era algo que fugia ao meu controle, mas mesmo assim sentia-me como uma pessoa normal, agindo de forma natural.

O pior aconteceu meses depois, quando mesmo dentro de meus delírios e de meus labirintos internos, ouvi o médico dizer a palavra esquizofrenia, e que daquele momento em diante, não poderia conviver com o restante da sociedade – digo restante pelo fato de ainda sentir-me como parte dela.

Aquilo que havia de especial em mim e que eu tanto queria mostrar ao mundo, acabou tornando-se um refúgio solitário, pois era eu o único a ter acesso.

Meu grande sonho de tornar-me famoso terminou no completo extremo: encontro-me hoje num manicômio , sozinho e no completo esquecimento junto há vários outros que passam pelo mesmo processo.

Meus laços familiares e de amizade foram completamente rompidos, pelo fato de eu não mais existir mesmo ainda existindo, pois com minhas mudanças de compotamento, tornei-me outra pessoa, muito diferente daquela que costumei ser por toda minha vida. Por isso não recebo mais visitas. Muitos deles ainda vinham ver-me assim que mudei-me para cá, mas a frequência começou a diminuir, já que todos se frustravam por não encontrar mais seu amado parente ou velho amigo, mas sim, uma pessoa de personalidade diferente, mas de aparência igual.

Mas mesmo os loucos sonham, e meu útimo artifício e o legado que posso deixar, na esperança de alcançar a tão almejada fama, é este pedaço da minha história. Para que sirva de aprendizado para aqueles que se encontram diante da decisão que há muito já fiz, mas tenham a sabedoria de dizer um NÃO. E que sirva para aqueles que discriminam os “diferentes” neste mundo, refletirem que somos loucos, mas ainda somos seres humanos, e por isso ainda possuímos sonhos, desejos e sentimentos.

Obrigado a todos pelo tempo gasto com a leitura de minhas palavras, e se Deus quiser, com o tempo gasto com a reflexão.

                                  Abraços a todos

                                        Ângelo

 

                         PELO MOVIMENTO ANTIMANICOMIAL

                                                                   E

                                         PELO NÃO  ÀS DROGAS.

Vidas…

Templo da LuaEncontrava-se finalmente de frente a pirâmide. Bastou fechar os olhos e um desejar sincero, para que a porta abrisse dando-lhe a oportunidade de estudar seus mistérios. A noite de um azul bem escuro, parecia um imenso corte de tecido estampado de estrelas prateadas e bem brilhantes. Olhou-o para despedir-se e sentiu o vento gelado do deserto em seu rosto, como quem dizia para entrar, pois não havia muito tempo. Pronunciou uma palavra desconhecida por ele mesmo e o imenso corredor iluminou-se de repente.

Ao caminhar por entre os símbolos e hieróglifos, sentiu sua alma como dividida: metade era como uma criança eufórica ao aventurar-se por novas rotas, ao descobrir um novo mundo; a outra, possuía  serenidade, seriedade e maturidade nunca antes experimentadas por ele, e lhe parecia que nem uma vida de 200 anos lhe proporcionaria tal amadurecimento.

Chegou até uma câmara toda ornamentada com textos formados por símbolos e desenhos. Ao passar seus olhos por eles, tinha a vaga sensação de compreendê-los como se estivessem escritos em sua língua natal.

Aproveitou cada segundo no local e percebeu que já era a hora de partir, pois ainda faltava-lhe fazer uma visita. Num simples gesto com os pés e um querer verdadeiro, começou a flutuar e saiu pela mesma porta que entrou.

Voou em direção as nuvens, e entre elas avistou uma grande estrutura que lembrava-lhe um grande templo. No meio do breu da noite, cada pedaço das colunas daquele santuário, parecia provido de uma singela luz própria.

Mais uma vez uma palavra desconehcida foi pronunciada, como se sua boca tivesse vida. Suas roupas, então, transformaram-se em uma túnica de um escuro azul-marinho e assim como a noite, possuía estrelas que pareciam mover-se com seu brilho. Estranhou o acontecimento, mas olhou em volta e viu que todos os presentes trajavam-se com o mesmo estilo.

Andou pelo templo e admirou o ir e vir de pessoas tão bonitas, que pareciam ser envolvidas por uma luz natural,estudando e conversando sobre o Criador, a Criação e os mistérios que os envolvem.

Vieram lampejos em sua mente de um lugar diferente, completamente alheio àquele em que se encontrava. Deu-se conta de que aquela não era a realidade e que seu mundo era diferente. Viu-se em um um quarto e percebeu que tudo não passara de um sonho… ou de uma linda viagem. Levantou-se e seguiu com a vida  a qual pertencia, na certeza de que não era a única que possuía.